domingo, 11 de março de 2012

Mais da Flor

Os opostos intercalam-se


O ontem o hoje e o amanhã são entidades antigas


Após a angustia a paz semeia na mesma terra ressecada pelo


desânimo.


Minha boca clama por mais


Meus olhos clamam por mais

Meus pés clamam por mais


Mais..... mais...


Mais deste mistério abundante da vida


escasso de nosso entendimento.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Vícios de Mulher


Foi por acaso que abri aquele livro de contos. Sempre gostei de ler, ainda mais quando uma mulher se dispunha a escrever. Sim, ainda carrego algo do feminismo comigo, mas isso não vem ao caso, quase todo mundo fere o politicamente correto.
A escritora parecia ser uma mulher madura bonita e inteligente, esse último adjetivo é redundante porque seus livros eram ótimos. Aquele exemplar pesando sobre minhas mãos abriu na página de um conto moderno. Era o relato da separação de um casal, intitulado Cupido, que como tantos outros faliu. Esse especificamente antes de estabelecer-se como um romance. Suponho ter sido um breve flerte. O curso do rio é oposto entre os sexos, é curioso como mulheres namoram e homens divertem-se. Ela relatava a qualidade do homem em questão, seu Romeu e em paralelo exaltava suas qualidades. Uma mulher ferida suscita o que há de mais selvagem em si, sei que muitos irão dizer que estou sendo radical, pois a nossa cultura protege e relativiza os atos masculinos. Mas, o caso é a permissividade. Mulheres doam-se, esperam e perdoam, estatisticamente, muito mais que os homens, contudo cobram caro depois. Cobram atenção, palavras, gestos e declarações de amor.
A autora detinha atributos que supostamente a separavam deste grupo de mulheres cobradoras. Todavia, ela cobrava de um modo singular em seu conto este que mencionava sua tribo literária, ou seja, todos do seu convívio participavam do seu desdém pelo homem em questão. Apesar de todo seu esforço para a liberdade feminina, era cínica e desejava fazê-lo de objeto de modo semelhante ao trato masculino com o sexo oposto da época.  Ela citava o péssimo desempenho sexual, a falta de viço para vida, a tristeza personificada naquele exemplar curioso da espécie, ainda que fosse um intelectual.
Sempre gostei de homens sensíveis. Há algo perturbador na cena em que o homem sentado num banco ler calmamente com ar despreocupado. Exercem um fascínio sobre minha libido as palavras exatas dentro de qualquer período e conexões de pensamentos do homem intelectual. Os nomes dos autores são doces e atraentes aos meus ouvidos.
Perdoem-me o devaneio. Voltemos a nossa autora, também militante da causa feminista ainda que bem distante do modo polido de Jane Austin. Essa brilhante mente que mesmo não saindo de sua pequena e pacata cidade abarcou o sentimento contido na mulher desbravadora da cultura.
Ela, a autora, usou de suas letras para enxovalhar a recusa do homem em lhe pertencer. Atribuiu a sua jornada sagrada o adestramento do outro. Talvez o aprendizado consista em saber passar pelas experiências apenas passando como Krishnamurti sugeriu um dia, sem condenações ou acúmulo de culpa.
Pergunto-me o que a autora pretendia mostrar e para quem quando resolveu tratar pejorativamente esse recorte de sua estória. Mágoa, frieza, medo? Qual a sua real motivação?
A tarde caía, a biblioteca escura expulsava seus visitantes. Guardei o livro junto com questionamentos. Fui à cafeteria da esquina e enquanto aguardava meu pedido contemplei a rotina dos passantes. A xícara floral continha o líquido negro enigmático. Os desenhos formados no café quente disseram muito mais sobre tudo isso.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Passos Silenciosos


Uma nova jornada desponta
Multifacetada nas inquietações do cotidiano,
Fazendo ruir as certezas lapidadas
Outrora defendidas com a existência.
Dias e noites sucedem-se num fluido de esperança,
A raiz desta esperança é o medo da névoa no caminho.
Tanto foi colhido, acolhido e recolhido com posse
Para findar-se sem delongas.
Sempre se espera um talvez no último pensamento,
Na palavra derradeira.
O presente convida com sinais de luz
Desfazendo a escuridão melancólica do passado
Sem permitir a ansiedade de como será o futuro.
Uma vez mais de soslaio olho
E pela primeira vez, sigo sem despedidas. 

domingo, 9 de outubro de 2011

Oração


Desejo ser de qualquer tempo
Preciso caminhar sozinha.
Dialogar com o vento
Na solitude das minhas manias.
                  Eu prefiro a solidão
Meu reduto ao anoitecer.
Quando recolho as armas da luta do dia para sobreviver.
                Eu conheço a solidão
Sem recusar minha companhia.
Sou parte deste chão
Não me canso de dizer.
               Eu prefiro a solidão
Porque saboreio o êxtase da despedida.
Desconheço a medida que deveria ser.
             Eu prefiro a solidão
Nela rabisco alegrias,
Entre nuvens recrio cenas
Sinto as emoções de outros dias.
             Eu prefiro a solidão
Medito no poço, antes lago profundo.
Onde reflito além do horizonte.
            Eu prefiro a solidão
Conheço-me bem.
Sou bicho do mato
Arredio ao laço
Desconfio de tudo
Confio em nada.
            Eu prefiro a solidão
Quando sufoco a saudade
Num castelo de areia.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Avesso

Permita-me ser triste

Ser inverno na ausência do sorriso
sem ferir a tua fé

Conceda-me a ingênua descrença

O caminho da esquerda na sombra disforme

Deixe-me ir na mutação da noite estrelada

Dê-me silêncio franco ao ver-me domada pelo medo.
Dê-me goles, gotas
Estações, medidas de tempo 

A semente inefável da possível angústia corrói sem germinar

Eu quero, mas não hoje a quietude da tristeza que é finita.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Metade

Metade de mim é encontro
E a outra é procura.

Metade de mim é amorosidade
E a outra indecisão.

A paisagem atrás da neblina
Guarda a origem desconhecida.

Um soluço do tempo
E eis-me aqui
Entre rabiscos e desejos, decompondo a vida.

Um suspiro do mundo
E tornei-me mulher.

As metades de mim
Passeiam em dois caminhos.

O corpo e a alma tem um encontro marcado.
A beleza do sol não ofusca o encanto da lua.

Metade de mim é luz
A outra metade é sombra.

A estranheza do amar paralisa metade de mim
E aguça a outra metade.

Metade de mim é leveza
A outra é terra é crosta é chão.

domingo, 12 de junho de 2011

Culpa da Ausência

A inspiração não vem.

A página em branco

Clama ao tinteiro por palavras,

Palavras são milagres,

E milagres são pouco confiáveis.

Ponderar é uma velha mania,

Mera teimosia de contrariar o instinto,

Polo distinto da Razão sob o turbilhão de ideias.

À porta da emoção penso no amor,

Seu divã vazio na sala está.

Por que falar do amor, ente fugidio?

Sim, há um vazio no peito.

A saudade é companheira diária.

A canção embala os sonhos noturnos.

Mas, a quem amar?

A lágrima escrita molha a antiga página em branco

E esta triste mancha a palavra.

Somete a ausência do amor

Desconcentra a lógica e mistifica o sentimento.